28 Outubro 2009

Quantos gigabytes você tem?

Por Francis Batista

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Esta reflexão começa com um questionamento: quem está a serviço de quem; o homem ou a tecnologia?

Uma era de globalização e de modernidade, com números e velocidades avassaladoras de informação e entretenimento se descortinam, todos os dias, diante de nossos olhos. São os celulares, os computadores, a imagem digital e TVs de plasma, antenas a cabo, todos os “MPs” (3,4, 5, 6, 7, 8...), e todos eles lançam uma desafiadora dúvida diária: afinal, quem é mais complexo: homem ou máquina?

Estas facilidades, no itinerário cotidiano, quase nos fazem esquecer a essenciabilidade humana, a partir de sua própria origem: quantos eram, antes de você, até que chegasse ao óvulo e fecundasse a vida, a contar de então? E como, sublimemente, começou todo um processo na construção do seu mecanismo interno, de sua “placa-mãe”, da instalação de seu “chip” cerebral...

Como esquecer a nossa primeira professora? As primeiras letrinhas do “ABC”? Talvez você não recorde agora, mas que tal, a sua primeira palavra falada? Pode ter sido “mamãe” ou “papai”... E o primeiro dia em que se sentou, caminhou ou ficou de pé? A primeira música que você cantou, ou que alguém cantou pra você? Talvez, todas estas coisas, aparentemente esquecidas, devam estar na “caixa-preta” de sua mente e, num momento de nostalgia, possam talvez vir à tona, naturalmente.

Mas vamos por caminhos mais atuais: você já parou pra pensar em quantas datas existem na sua memória? Aniversários, casamentos, amigos, dias cívicos, mortes... Quantos números você tem decorados até hoje? Tabuada, telefones, alguma estatística, senhas, sua identidade ou CPF, o número da sua seção eleitoral, o CEP de sua cidade ou caixa postal... Quantos cheiros existem na sua cabeça, quantos você consegue distinguir: perfumes, aromas, odores, comidas, agradáveis, outros nem tanto, cheiro de terra molhada, de carro novo, da “mamãe”...? Quantas músicas você  consegue lembrar, e mais que isso, de suas letras? Nomes? De pessoas, de artistas, sua família, amigos, colegas ou ex-colegas de escola ou do trabalho, “políticos”...

Você lembra, por exemplo, do assunto que teve mais dificuldade em matemática, ou química, ou física, ou daquele texto, daquele autor literal em português ou literatura? Daquele filme, novela ou livro, com história inesquecível? Daquele semblante, que pode ter passado apenas uma vez por você, mas que com certeza, você nunca o esqueceu? De histórias que te contaram, de viagens que fez a lugares que conheceu, que antes te eram estranhos... e das pessoas que conhecera nestes lugares? Do primeiro amor? Primeiro beijo? Uma briga séria com alguém... Gargalhadas explosivas com aquela piada que você não se esquece nunca e conta tão bem... Você lembra coisas como estas?

Ainda existiriam algumas peculiaridades que talvez ficassem restritas apenas a uma gama menor de pessoas: lembra da execução e partitura daquela peça para piano, ou coro, ou orquestra? Lembra como tocava (ou ainda toca) aquele instrumento? Lembra do fim daquela ópera, da peça teatral ou daquela coreografia naquele musical? De quando tirou a tua habilitação, do primeiro emprego, do primeiro salário? Lembra da primeira cachaça e do primeiro “porre” no dia seguinte?

Com exceção de algumas das últimas, mas todas as outras são cenas e situações comuns a toda a raça humana, independente de sua condição sócio-político-econômico-geográfica, idade ou crença. A você, te parece comum ao menos 70% do que foi citado, refletido? Ótimo. Pois bem, vamos ao que vem a seguir: quantos gigabytes tem você? Quanto tem de memória no seu “HD”?

Vejamos: indo por uma ótica de lógica, o homem criou a máquina; portanto, é seu senhor. Nunca haverá possibilidade de a máquina ter maior inteligência que o homem – eficiência, talvez – porque, sendo assim, a espécie humana estaria exterminada.

O que aconteceu ao longo dos séculos foi uma “inversão de valores”, onde se “subjetivou” a máquina, personificando-a e “objetivou-se” o homem, minorizando-o quanto ao seu intelecto.

Num contexto histórico-global, esta tendência começa a partir de um “divisor de águas”: a Revolução Industrial, onde se começou a perceber que era muito mais útil se investir em maquinário (porque mais eficiente e menos dispendioso) do que no homem. Daí, este processo e mentalidade evoluíram, até chegar ao ponto central, o eixo desta reflexão: as máquinas estão mais inteligentes, a ponto de criar vida própria.

Mas há um paradoxo crucial em torno deste pensamento, que talvez, ao longo da explosão tecnológica, corramos o risco de esquecer: a única possibilidade e condição da evolução da tecnologia – em função ou não da informação ou do entretenimento – passa diretamente pelo “aval” do intelecto humano, que é protagonista neste sentido. É ele quem sempre está criando, aprimorando, patenteando e plagiando (também, por que não?) as novas e inovadoras formas de tecnologia.

Então, da próxima vez que você estiver diante de um aparelhinho qualquer, geralmente inferior a meio metro, e estiver se sentindo impotente diante dele, estufe o peito e deixe muito bem claro: “quem manda aqui sou EU!”.

2 comentários:

Sérgio Miranda disse...

Além Matrix, talvez a maior representação da relação entre homens e máquinas, a animação Wall-E comprova que a máquina nunca irá superar o homem. Isso só citando o cinema.
As máquinas são ferramentas para facilitar o nosso dia e não só por terem sido criadas por nós, mas pela superioridade que no texto foi muito bem explicada.
E a cada novo lançamento, a cada novo upgrade, temos a certeza de que as máquinas sempre dependerão 100% do homem, mas o homem nunca irá depender 100% das máquinas.

Vinicius Cabral disse...

Creio eu que não há um espaço "físico" limitado por uma quantidade "X"... até porque nosso "HD" registra informações que nós nem percebemos...

A parte que vc fala da "inversão de valores" do homem com a máquina... na boa... onde eu assino? É exatamente isso! E o resto já faz parte da História...

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